quarta-feira, 14 de julho de 2010

Loulou, Margarida, Ti mesma, tenho que te chamar de todas as formas possíveis, para ver se perdoas essa correspondente tão ausente, não é?

Margarida,
tanta coisa aconteceu em um mês. Esse mês em que nós não nos correspondemos por aqui, não foi? Não vou dizer que aconteceram tragédias e maravilhas, aconteceram coisas. Coisas da vida adulta, esta que eu tanto temo.
Não quero falar de tristezas hoje. Tampouco de alegrias. Mas preciso te dizer que mudei. E não foi só o cabelo! Mudei muito, mudei até meu estilo de escrita. Mudei minhas leituras, mudei minhas perspectivas, estou prestes a mudar de endereço, mudei ra-di-cal-mente.
Talvez essas mudanças já viessem se processando há muito tempo. É incrível, eu tentei ser menos mística, sonhadora, bobalhona, religiosa, mas tudo realmente acontece na hora exata. Absolutamente tudo. Tudo se encaixa perfeitamente. E isso não é bom nem é ruim. Simplesmente é.
Tudo isso tem agido sobre a minha escrita, Margarida, sabes? Voltei a engatinhar. Não sei mais escrever poemas. Não sei mais escrever ficção. Voltei para a fase do diário, não é incrível? Voltei, sim. E o mais importante, não estou me sentindo culpada por isso. Acho que as cartas vêm bem a calhar.
Tenho lido muito também. "Do luxo ao lixo", como dizes, "do Kitsch ao Cult", como dizem. Do lado A ao lado B.
Tenho recebido muitos afetos. Tenho me decepcionado e tenho percebido que o mundo é cheio de pessoas boas. Não é otimismo, não. Eu tenho precisado tanto de gentes. E elas não sumiram como das outras vezes, isso não é bárbaro?
Tenho me descoberto. Há um tempo, pela primeira vez, tive uma reação que, para mim, era totalmente cinematográfica? Eu ri até chorar e não o contrário. Isso para mim era ficção. E não é não. Aconteceu. E foi um alívio e tanto.
Tenho sentido coisas que não ouso contar para ninguém. Recalco tudo. Quase tudo, digamos. Talvez não seja melhor assim, mas é o que estou conseguindo fazer até o momento.
Tenho visto coisas. E eu nunca vira coisas assim antes. Ando me surpreendendo. Comigo, com os outros. E também não é bom nem ruim. Só é.
Não consegui parar o tempo. O que eu tanto quis. Desejo infantil e imaturo. Mas não deixa de ter sua dimensão de beleza, não é? Agora eu quero que o tempo voe. Quero ter quarenta anos em quatro. E isso não é pessimismo e falta de perspectiva de vida, fique bem entendido.
Tenho dormido tarde ou cedo, mas nunca no horário. Mas isso já era assim antes.
Tenho estado distante. Tenho visto estradas. Tenho trabalhado menos. Tenho ficado triste ou eufórica. Tenho sido tão previsível.
Ai, loulou, acho que estou começando uma nova fase. E o mais engraçado é que eu não sei precisar qual é.
Isso se chama inverno do pensamento?
Amanhã vai nevar.
Não esqueças que eu estou de volta, mesmo que eu desapareça, ok?
Um beijo bem estalado,
jana

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Janajanajanajana ...

E não o Que É "Quizá" está se fazendo presente?! Pouco temos nos visto nos últimos dias. Tudo Bem Que tenha Sido empregado De maneira equivocada, Mas parece Que ESTÁ SE Fazendo prevalecer! Coisas da Vida ...
Hoje vi Uma borboleta amarela e Pensei: voa, amiga, voa Para os Arredores de Minha Amiga! - Meu Desejo Que Sera Foi realizado?
03:35 São Ágora e Fugiu Meu sono. Talvez Seja ansiedade Pelas trabalhística Exigências da Vida "e academística" Mesmo malandragem OU ... saber Eu Vou! MIM Então, DEPOIS DE minutos deitada ali Ao lado, Pensei: se Faz Sobre escrever urgente como urgências e como Exigências - Palavras Que Nesta Semana Tão se fizeram 'n impositivas. Contrariando orientacoes como médicas (FICA Longe do Computador, escreva Não e blablabla), sentei corresponder parág.
E enquanto organizo minhas Idéias sem rádio toca uma música "Além da Máscara", Engenheiros do Hawai. E a tal coincidência Tomando Conta do Ambiente (rsrsr).
Devido Às dores, me vi obrigada Ficar deitada um e mimada Durante a Semana. Sem Grandes Esforços e Acompanha Que controlando ESSA "hiperatividade" e me Que me Faz desrespeitar Os limites do Corpo Meu. Então, aproveitei par refletir! Ai, Senhor dos Desgarrados Deus, Quanto Detalhe estava perdido Meu Caminho não ... e resolveram se mostrar Todos Nesta Semana! Avalanche de Informação!
É fofura, tiva de núm Ficar Repouso Forcado parágrafo Coisas Várias rever. E Pensar naquilo Tudo Que Não Corresponde Exigências como minhas, POIs correspondendo Vou enquanto como Outras das minhas esqueço. Prioridades Das minhas, das minhas vontades, anseios dos Meus ... Talvez tenhamos conversado Nunca Sobre isso PORQUE Talvez tenhas esquecido das Tuas Também. Loucura, não?!
E Talvez eu esteja filosófica demais Exatamente Por Não lembrar delas MAIS. Mas tudo bem, acompanhada de leituras ALGUMAS (não adianta, uma Pessoa Não consegue obedecer, rsrsrs) e Vários companheiros e Televisão e coversas com risadas e mamis e mana Amigos e amigas e, lembrei da Idéia das ovelhas!
Será Que Poderíamos ter ovelhas nd Tenda multifacetada e Heteróclita? Ah, Poético Tão séria!
E enquanto enfrentas Momento pré-concurso, enfrento monografia Momento. E essas Exigências desgastam Urgentes, evidente é. E Hoje Não conseguindo Separar o joio do trigo, recebi uma frase seguinte: "desiste OU Entrega-te". E lembrei do "paulatinamente impactante" da Grazi. E vi Tanta Verdade e Tanta Intensidade Nesta frase Que decidi adota-la NAS Decisões da Vida. E eu me entregar Decido. Ai, Jana, Quer saber: fechei o olho, Tapei o Nariz e me joguei! Realmente, parágrafo Várias Situações da Vida O meio termo Não Precisa Existir. E o motivo é:

"Num piscar de Olhos
Tudo se transforma
tá vendo? Já Passou "(Engenheiros).


Janabanana, preferiria Uma ressaca de vinho não ter refletido Que tanto. Semana Caio F., certeza Toda com: tensa, densa e Intensa ...

piscadinhas e torcidas de Nariz,
loulou.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

loulou,
ando preocupada... não tenho visto borboletas amarelas - meus eternos sinais de boas novas... a G. me alertou para o fato de borboletas estarem escassas no mercado, já que começa (começamos?) a "invernar". Mas, no ano passado, em maio, me lembro de ter visto borboletas bem amarelinhas, pressupondo o inverno bom que eu teria, apesar de todo o frio. Talvez seja só o inverno chegando, talvez sejam realmente os últimos acontecimentos que eu classificaria, sem medo de parecer pessimista, de más novas.
Tenho tornado tudo isso ficção. Aliás, já é uma fixação. Parece que as dores doem menos assim. Mas também me sinto cruel e egoísta (narcisista?). Quanto mais penso já ter sido iniciada no mundo dos adultos, mais rituais de iniciação se apresentam a mim, sem eu ter escolha... ando enfrentando "coisas"... dói, mas prefiro pensar nisso tudo como um crescimento pessoal, um amadurecimento, sei lá.
Ando lendo coisas novas: Campos de Carvalho. Como passei tanto tempo vivendo ser ler esse cara? Ele escreveu obras que eu - pretensiosa como sempre - queria ter escrito! A Chuva Imóvel é imperdível. E O púcaro búlgaro? Nossa, Lú, tens que ler! Surrealismo puro! Escondo-me dentro dos livros sem impasses. É melhor assim.
Mas que coisa boa é ter amigos. Houve um tempo em que as pessoas sumiam quando a coisa ficava preta para o meu lado. Agora não, muito pelo contrário, elas ligam mais, querem saber como eu estou... isso me deixa esperançosa! As borboletas vão voltar, certamente.
A semana que vem será árdua... é estranho ter que esperar uma banca decidir minha vida sem nem eu mesma saber o que quero para ela... ironias, ironias...
Mas no meio de tantas coisas estranhas, de tantas iniciações ao mundo adulto, eu tive um final de semana muito bom! Família, família, afetos, afetos, irmãos, sobrinho, pai e mãe, vinho chileno, essas coisas, o que me deixou forte para enfrentar a semana, os hospitais da semana, os estudos frenéticos da semana, as decisões importantes da semana, a semana, a semana...
Conheci uma pessoa muito interessante! Acho que pode me ensinar alguma coisa para minha vidinha - digamos que a vida pressuponha aprendizagens. O nome dela é Esmeralda. Olha como foi: Janaina enlouquecida na rodoviária, almoça no primeiro buraco que vê e ouve atrás de si comentários otimistas sobre a vida, louvores a livros e a línguas estrangeiras, vira-se, obviamente, e sorri para a pessoa que fala, pensando: bem que poderia viajar no mesmo ônibus, ao meu lado, para que eu possa esquecer as tensões e os traumas. Dito e feito: enorme coincidência! Conversamos um bom tempo. despedimo-nos e fiquei com remorsos de não ter trocado telefones... no outro dia, caminho inverso, quem estava novamente no ônibus? Esmeralda! Eis que trocamos telefones! Acho que ela já trilhou alguns caminhos que estou por trilhar. Coincidência gigantesca! E as pessoas seguem aparecendo não por acaso na minha vidinha! Que coisa mais esotérica (mística?)!
De repente, não quero que o futuro chegue: quero ficar por aqui, no presente. Quem sabe? Sempre fui Alice, Polyana, Polaróide... posso continuar, não é? Não custa nada. Pronto! Passe de mágica: facinho, facinho, as instruções estão todas no manual (eu e os manuais!), a partir deste momento, 02h48 minutos, estou parada, estanque, estancada no tempo: eu e meus afetos, quero que durem um eterno tempo presente (talvez isso soe católico, mas não quero redenções, só curtir tudo que há agora, me embeber do mundo!
Flor, desculpa as minhas desordens, tá?
Cafuné,
jana

terça-feira, 11 de maio de 2010

Amiga querida (e quiçá distante),

companheira de trabalho e devaneios! Já passou das 22h e aqui sentei para escrever algumas linhas... está passando cada vez mais rápido! Parece que foi ontem que me mandaste a última carta. Perdoname, não é desleixo com a nossa escrita, mas cansaço mesmo.

Tu com todos os teus projetos (e eu com os meus) que nem para um café básico o relógio tem sido nosso amigo! Injustiçadas pelo tempo! E desestabilizadas pelas leituras: caos! Caos! Caos! Se bem que me parece que aquela nuvem negra que andava sobre as cabeças tenha sido levada pelo amigo vento (pelo menos é o que me parece). Ando mais leve, mais risonha e mais confiante no futuro (seja ele próximo ou distante); afinal, se não confiarmos nisso, no que confiaremos? Assim só nos restarão as tais ovelhas (que para Caio F. simbolizavam o lado mais humano do ser humano, mas isso é outro capítulo)!

Neste momento um vento gélido invade o meu quarto enquanto escrevo e tomo meu vinho para manter-me mais tranquila e aquecida depois de um dia bem cansativo. Cansativo e produtivo: me sinto viva fazendo o que faço – nascemos narcisistas, coisa boa... e com o tempo aprendemos a perceber o outro. Ou a analisar o outro? (pensei na AD ao escrever isso, a tua eterna paixão). Mas a mim me basta aceitar o outro (com ou sem borboletas amarelas).
E agora Fito se faz presente ‘en mi habitación’ cantando “Tiempo al tiempo”; e enquanto ele canta eu penso: não adianta, Jana querida, as coisas nunca acontecem no tempo que queremos. E para isso temos de dar tempo ao próprio tempo.
É, sei que é complicadíssimo controlar a ansiedade neste momento de tensão pelo qual estás passando, mas respira! Enquanto houver borboleta amarela, haverá uma luz que continuará a brilhar! E assim seguimos acreditando e muito nisso que já foi dito.

E ninguém disse que viver seria fácil, mas com toda certeza foi prometido que sempre valerá (e muito) cada instante!

Cócegas cócegas da loulou.

terça-feira, 4 de maio de 2010

loulou,

faz-se realmente urgente, senão a gente explode, não é?

A propósito, achei uma coisa muito interessante na tua "epígrafe" à última carta: o outro país está, ao menos linguisticamente, definido... e, no entanto, quem sabe qual é esse país? Achei ótimo.

Sem propósito, essa rede me encanta. Tá tudo tão embaralhado na minha cabeça, margarida. Sabes? Borboletas amarelas, cartas de Caio F., cartas nossas, projetos de doutorado, concursos, aulas, materiais didáticos e essa coisa da escrita que não me deixa mais, nunca, em sequer um momento ínfimo, em paz. E essa rede, que é nossa e da nossa imaginação, que é das pessoas em torno e das pessoas que lemos, que admiramos, está me determinando. Não sei, é coincidência demais para eu não me tornar mística, entendes?

A verdade é que a escrita tem grande parte nisso tudo.
Ando lendo coisas desestabilizantes. É por que parece muito comigo. E a gente se assusta, não é assim? Pois é, até as minhas borboletas amarelas andam aparecendo na boca de tantas pessoas. E elas falaram nisso antes de mim e eu nem sabia. Será que é senso comum falar de borboletas amarelas? Ando com muito medo de plágio. Descobri uns versos da Ana C. embretados nos meus. Ai, o tal de interdiscurso. A AD me pirou um pouquinho, sabias? A diferença entre plágio e interdiscurso é só a minha intenção – que, diga-se de passagem, não existe segundo a teoria – e isso jamais alguém vai conseguir descobrir.

O meu blog particular fez três anos e anda particularmente compulsivo (sim, ele tem vida própria). E anda achando que citando as fontes se isenta do plágio. Não sei não, tenho que dar uma olhada na legislação. Um projeto de doutorado não é propriamente uma mudança de vida, mas, de fato, o corpus anda me fazendo repensar posturas. E ele tem – eu não sabia antes – tudo a ver com o projeto anterior do mestrado e tudo a ver com as leituras indicadas ti, loulou. Tudo convergindo no momento certo. Fico otimista.

Se pirei? Não, querida, sempre fui assim, agora só to mostrando, tipo portfólio, sabes? Acho que vou fazer o maior sucesso no underground. Ando realmente muito otimista. Acho que tenho futuro, nem que seja escrevendo Júlia e Sabrina. Uso um pseudônimo, já tenho tudo armado, ninguém vai saber que sou eu. Eu imagino que um livrinho daqueles saia em uma noite. Vou produzir muito, ganhar uma graninha pra me sustentar e nas horas vagas vou escrever o que me interessa. Ai, que plano ótimo! Bem sagitariano, eu diria. Não, tudo bem, não vou ficar chateada, pode dizer. Hein? Ando precisando de tratamento? Sim, eu sei, mas se eu fizer agora, acho que metade da criatividade vai embora. Não quero perder isso, entende? Ando compulsiva mesmo.

Estou orgulhosa de mim, mas continuo preocupada com os direitos autorais. Ana C. podia, mas eu não né. Sou meio mortal demais.

A propósito e totalmente sem propósito, continuo desorganizada interna e externamente. Perdoa o fluxo, tá, margarida?

Beijo no cuore,

jana banana 
E hoje amanheceu diferente.

Parecia que não estava aqui.
Parecia que caminhava pelo outro país.

Na verdade não era o outro país.
E hoje a neblina estava apenas mais densa.

Quem acordou diferente fui eu.
Jana:

Hoje se faz urgente ser intensa. E agora chove na úmida e histórica Satolep...

Depois de vários dias de silêncio voltei aos manuscritos virtuais. Várias pessoas, várias atividades e vários assuntos e em muitos momentos pensando: “vou escrever sobre isso! Vou escrever sobre aquilo!”. Mas como é complicado manter o foco frente a tanta multiplicidade... e como ser a mesma o tempo todo? Isso não me parece existir; ainda mais para nós mulheres (num dia amamos e no outro odiamos), tão múltiplas e tão atarefadas (ou afetadas pelo cotidiano?): filha, irmã, mãe, tia, mulher, trabalha em casa, trabalha na rua, faz o jantar, pinta a unha, retoca a raiz do cabelo (que este mês cresceu mais do que o normal), refaz a progressiva (quando pode), lê o livro, faz francês, aquece a água para o mate, toma um banho, arruma a mesa, desliga o PC, apaga a luz, boa noite, deita e dorme. Haja paciência e humor! ...

(Quiçá as palavras abaixo respondam as tuas várias interrogativas das cartas anteriores... vamos lá!)

Flor, me chamaste de Caia (aiê, eu tenho labirintite!!)! Nem perto chego dele, apenas me inspiro nesse ser fantástico que foi. E, imprevistamente, tanto nos inspira: primeiro pelas cartas que ele escreveu e segundo pelo seu lugar imaginário. Já falei do conto “Introdução ao Passo da Guanxuma” (in-tro-du-ção!!)? Impossível não sentir-se dentro de um carro (ônibus, caminhão, moto, bicicleta... desde que cheguemos lá com a nossa imaginação!) percorrendo as patas daquela aranha: “(...)uma pequena aranha inofensiva, embora louca, com suas quatro patas completamente diferentes umas das outras.” Palavras que mais parecem definir a todos nós do que ao lugar fictício, afinal: de perto ninguém é tão normal assim, Jana. E tudo isso começou com uma conversa com a A. -- chegada “das Europas” (lembras que te contei?)completamente fascinada pelos livros de Caio F. (e como são as coisas: ele estava aqui o tempo todo!!): dividiu o “Passo” comigo, que dividi as “Ovelhas” contigo (que já havias estudado a amiga dele!!) que seduzidas pelo Augusto (ave, Cézar!)fomos ‘insanamente’ ao teatro.
E quem algum dia teria arquitetado tão bem uma rede dessas? E, agora, aqui estamos com as nossas correspondências (in)completas. Se a vida é tão rara, tão rápida e nós sempre tão insatisfeitas, que motivos teríamos para que as nossas correspondências fossem completas? Que graça haveria nessa loucura toda?


P.S.: Depois de ter escrito fiquei pensando: onde estão meus adjetivos? Aqueles que estão sempre bem guardados para a tua GRANDE pessoa?! Que o teu afeto me afetou é fato evidente (e, por favor, que isso não seja distorcido por alguma mente podre)... mas a insatisfação sempre fica incomodando (parece que falta alguma coisa!!). E na verdade não falta. Estamos vivendo, convivendo e correspondendo correspondências: isso me parece tão forte quanto o que aqui está sendo dito!

Com carinho,
Lu.

terça-feira, 27 de abril de 2010

caia, vou quebrar o protocolo: vou te escrever sem ter recebido resposta da última carta. É necessário. Engraçado como este blog criou imperativos para mim. Escreve!, ele me diz, e eu só posso escrever, não tenho opções. É vital escrever aqui, um beco sem saída.
O Augusto acabou de sair daqui. Estivemos desde ontem à noite trabalhando, conversando, divagando, escrevendo, cantando, escutando nossos preferidos, dançando doidivanamente pela sala. É interessante o sopro de vida que o Augusto me dá! Por mais problemas que tenhamos, vê-lo me dá vontade de largar todo o resto para escrever poemas, cantar, falar da vida, de problemas existenciais ou rir compulsivamente.
Quando ele saiu pela porta, estava tocando "Joana Francesa", do Chico, na voz da Elis. Uma atmosfera de sonhos, incompatível com toda a realidade que me circunda.
A arte é cada vez uma necessidade na minha vida. Vê-la, ouvi-la, fazê-la. Não tenho mais como fugir. E parece que isso me condena a uma eterna insatisfação quanto ao resto. Amanhã o dia será árduo e somente à noite, felizmente os três juntos, poderemos "consumir" um pouco de arte que valha a pena.
Ando pensando seriamente em mudar de vida, ousar, tentar o novo, o improviso, o inesperado. Há muito tempo não penso mais ser dividida em duas... esta multiplicidade que somos me assusta... como dizem Deleuze e Guattari, "como cada um de nós era vários, já era muita gente.". Plenamente cabível para nossas vidas.
Ando levando a cabo essa ideia de multiplicidades. Se antes eu escrevia no ELA somente poemas, agora há um monte de coisas lá. As pessoas devem estar achando que eu enlouqueci. E, em parte, foi o que houve. Não quero mais negar os meus vários eus e assumir isso é uma loucura mesmo. Minha mãe anda me achando estranha, perguntou hoje se eu estava usando drogas. Quem precisa de drogas para enlouquecer se há um imperativo de escritura, se há uma compulsão pelo novo, pelo nunca antes visto?
Ando desorganizada interna e externamente.
Com carinho, jana

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Ai, cara pálida, eu não sei não onde vamos parar. As mudanças são rapidinhas demais para a minha cabecinha sonhadora! Bom, tu lembras do surto que tive só ao ler Deleuze e Guattari, né? Essa coisa de "caosmose" me incomodou pacas... Na verdade, eu não quero controlar nada, só quero olhar para as coisas, para as pessoas e não me desesperar por ver que elas não querem saber do que realmente importa. Elas querem viver em um reality show. Imaginas?! Não dá nem para dizer que vivem no mundo do Carroll...
Bom, uma otimista e uma pessimista se correspondendo é um maniqueísmo e tanto! Isso que eu sou a sagitariana, hein? Hoje não quero pensar no modo que vou achar para "me adaptar ao sistema", ele está tão introjetado em mim que nem vale a pena. O que vale é fazer pensar no interior dele, já que não posso sair. Voilá, eu sou o sistema, mas eu gostaria muito de estar na condição de "marginal", to-tal-men-te deslocada. É assim que me sinto. Na desordem. Não tenho a ilusão de que exista alguma ordem possível.
Movimentos? Chega, já estou ficando tonta! Brincadeirinha. Mas eu prefiro trocar "movimento" por "deslocamento". Lembras das aulas de Pragmática? Adequabilidade e aceitabilidade? Bem, eu preferiria inadequabilidade e inaceitabilidade!
Tá, tudo bem, eu sei que não dá, que vão me colocar numa jaula e me expor em um circo de quinta! Apesar de pensar todas essas coisas, até que eu finjo bem que sou uma "sistemática", não é? Cumpro horários, dou aulinhas bem engraçadinhas, sou uma mimosa até. Engano bem, eu diria, apesar das olheiras. mas, para alguns, a ficha cai. Mamãe disse: minha filhinha, para que discutir com teus irmãos sobre machismos e feminismos? Eu só queria que tu fosses normal. Anormal: conceito de Foucault, maior elogio que recebi. E veio de minha mãe, que nem sabe quem é Foucault.
Amanhã vou providenciar um terreno para a Tenda Multifacetada e Heteróclita. Tá de pé ainda o nosso negócio hippie com a M.? Se é para viver de compra e venda, sejamos negociantes "Woodstock".
Boa noite, margarida, amanhã trazes um chá para mim, por favor, querida? Hehe, dá-lhe Vergueiro!
Cafuné, jana
cara pintada!

Teus escritos me deixaram em extrema angústia. Não pelo fato de discordar ou concordar, mas pelo fato de que talvez nos falte espaço para refletir sobre isso. Se bem que agora temos um espaço.
Bem, também fiquei pensando sobre as nossas discussões políticas de ontem: se não temos força para modificar um sistema, como fazer para adaptar-se? Alguém saberia responder este questionamento?
Acredito que não, Jana. Um sistema nunca agradou a todos. E nunca agradará. Isso me parece ótimo: sinal de que mudanças acontecerão. E mais e mais e mais. E mais máscaras! (ou seriam manteigas para suavizar o árido?) Uma pena que o marginal, que tanto atrai ou agrada, tenha lugares reduzidos. Pode ser atraente, interessante... mas são poucos que o acompanham. Talvez seja para poucos e raros. Pelo simples fato de que aquilo que não está na ordem é desordem; infelizmente não existe um meio termo. Seria um maniqueísmo disfarçado? E mesmo que seja nunca será dito. E isso não importa, pois já está dito. E ponto final.
E assim seguimos nos movimentos: com máscaras, sem máscaras, concordando e discordando. Num dia sendo aplaudida, no outro envenenada. Mas seguimos nos movimentos. E o importante é movimentar idéias e bandeiras. Se hoje ela é rechaçada, amanhã poderá ser ovacionada. Sendo capitalista, sendo socialista... mas SENDO!
Já pensou se ficássemos cegas? A famosa cegueira branca de Saramago? O que faríamos? Seríamos mais humanas? Vejo que hoje falta um pouco de humanidade na humanidade. Mas isso é outro capítulo...
E visualizo muito bem a expulsão: muitas vezes a convenção é extremamente contraditória. Intensamente. E quanto a isso, sinceramente, eu não sei o que fazer. Talvez possa dizer algo. Mas fazer é mais complicado. Aparelhos ideológicos...
Buenas e me espalho. Escandalosamente em adaptação. Em construção e desconstrução.
E com o eterno complexo do elogio.
Por favor, manteigas!

Beijocas,
Margarida!

domingo, 25 de abril de 2010

loulou,
gostei da tua "co-respondência". Divina, como sempre são teus escritos, muito embora eu não goste mesmo de muito-emboras! Mas isso não tem nada a ver com o que significa para ti, bem sabes...  As intensidades me agradam muito!
"caia", eu espero seriamente não ser assim tão lúcida! Porque, se o que já vi até agora me incomoda e me choca, quando chegar no ponto da clareza absoluta que a lucidez implica, não sei como posso vir a ser, se é que "ser" é algo possível nesse momento. Mas, dizes que o capitalismo te chama para a realidade. Eu não sei se é isso que acontece comigo; eu acho que ele - esse sistema patético que é a nossa regra e do qual não podemos fugir, suas filhas que somos - me tira da realidade e me joga num universo paralelo: eu exerço papéis durante a minha jornada pública e só existo quando estou longe de todas as minhas obrigações. Não que essa separação seja assim tão clara, mas eu clamo pelo momento em que possa relaxar e tirar as tantas máscaras que uso no dia-a-dia, embora elas façam parte de mim.
Ontem, conversamos tu, C. e eu sobre política, assunto que me incomoda muito. Incomoda-me porque deixei de estar diretamente envolvida com isso, justamente porque me incomodava o modo como as coisas eram feitas. Olha só como somos do sistema: ele consegue nos expulsar facilmente! Ele comporta as falhas em que nos apoiamos para contestar. Consegues visualizar? É ele mesmo que as cria! Não temos opção...
Quando penso em uma bandeira, não consigo sair do lugar comum "política-de-merda" desse país e continuo em uma posição passiva quanto a tudo o que acontece. Como se eu não fosse culpada! Como se eu não pudesse fazer nada! Porra, a culpa também é minha!
A minha "dor de consciência" é um pouco amenizada por esse universo cultural em que estamos indelevelmente envolvidas (ainda bem!). A arte é um tipo de negação dessa podridão toda. Acho que é por isso que gosto tanto da cultura dos anos 70/80. Essa coisa marginal me encanta. E, no fim das contas, acho que conseguimos fazer mais assim, questionando estas verdades absolutas que nos são dadas de mão beijada - legítima injeção na testa - do que se estivéssemos envolvidas em políticas partidárias. É, parece pessimismo, mas acho que, no meu primeiro mandato como alguma coisa pública, tipo "representante do povo", eu seria misteriosamente envenenada em uma confraternização depois de uma reunião extraordinária em que eu ousasse levantar a voz. Se eu fosse um pouquinho mais vaidosa, talvez me agradasse essa ideia de virar um mártir dos incompreendidos!
Olha, como eu dizia ontem a ti e a C., depois que política virou profissão - se é que não é assim desde sempre -, ninguém vai "lutar pelos direitos do povo" e todos esses chavõezinhos banalizados pelas campanhas eleitorais torpes. Emprego é emprego, cada um salva sua pele e chega em casa para um jantarzinho amistoso, depois do expediente, quando não tem mais de pensar nas suas (ir)responsabilidades.
Sabe-se lá. Eu quero é arte, essa nossa arte que não tem centro nem gravidade, essa arte que é livre, apesar de sermos o sistema, essa arte que nos invade e nos faz dizer o óbvio e o transparente e opacificá-los, torná-los imprecisos, trocar verdades por pontos de vistas. Eu quero uma bandeira em que esteja escrito "vou continuar marchando no sentido contrário, vou continuar tentando relativizar qualquer evidência, eu vou contra a maré, mas dentro do mar!" Não vou livrar o meu pescoço!
E tu que te vires com essa minha cara pintada,margarida!
Beijo no coração,
jana
Jana, amada,

gostaria e muito de poder responder à altura as tuas palavras tão lindas... mas talvez seja impossível responder aos teus afetos tão sinceros e tão dedicados. Então pensei: não quero responder, vou co-responder! Afinal de contas, uma amizade tão legal como a tua é rara!! A menina engraçada que entrou na sala errada (e me fez rir baixinho) era a mesma que ficava quietinha teclando e teclando e teclando. E aos poucos fomos nos aproximando, trocando conversas, confidências, risadas, gargalhadas, fraquezas e as famosas teorias esquizofrênicas. Tão menina e tão madura!
Mistura de carinho de irmã caçula com rigidez materna. Sempre presente: seja no real, seja no virtual. Seja no trabalho, seja no bar! Companheira pra cara...! Muito embora ela odeie o meu "muito embora". Mas que culpa tenho se as oposições, concessões e condições que a vida (ou a sociedade?!) apresenta sejam sempre intensas! Desculpa, jana, mas a mim me parece fundamental o uso desse intensificador. Muito embora ele não agrade. Muito embora ela pareça pedante. Muito embora ele não faça sentido nas vinte e quatro horas dos nossos dias... E muito embora sejas extremamente importante para mim!
E com o tempo nossas conversas foram amadurecendo. Muito embora sejamos tão distintas! E é muito bom sermos diferentes: eu cresço, tu cresces, nós crescemos! E assim nos alimentamos ao passar dos dias. E assim nos divertimos ao passar destas horas tão responsáveis em que temos a responsabilidade de viver! Em que muitas vezes vivemos verborragicamente para distrair um pouco as ideias.
Ideias loucas de tão lúcidas que são. E que tanto me confundem (afinal, aquele excesso de lucidez me cansa!). Talvez eu tenha um excesso de romantismo na forma como eu vejo o mundo... e que mesmo assim se mescla com a lucidez... Isso quando o capitalismo me chama para a realidade! Sim, não há capitalismo que suporte tanto romantismo! Mas, calma, porque no meio disso tudo sempre tem um anarquista desiludido querendo traçar significâncias para aquilo que não entende e não suporta devido à sua fraqueza.
E agora, Preta (roubado da amiga G.), ficou confuso? Relaxa, a realidade é confusa. E talvez seja exatamente por isso que a vida nos tenha aproximado: para rirmos, conversarmos e brindarmos com todos os alcoólicos do mundo os fatos que nos são apresentados. Os labirintos dos quais já saímos. As equações infindáveis que conseguimos solucionar.
E sempre cada uma, à sua maneira. E sempre com as borboletas amarelas a nos espreitar!

Carinhosamente, lu.
Lú,
acho que nunca expressei de verdade o quanto tem sido importante a tua presença na minha vida... é estranho, tem coisas que não consigo falar. Dizer meus afetos é uma coisa que dói. O esquisito é que escrever não me incomoda, pelo contrário, é uma redenção (supusemos que eu acredite em redenções que não sejam a de Porto Alegre!). Eu acredito sinceramente que este blog será uma espécie de terapia para nós duas. Estou apostando nessa ideia. Vai ser legal.
Mas, voltando ao assunto, te conhecer foi uma coisa muito boa. Eu posso não ser lá muito religiosa e não acreditar em (mais da) metade dessas coisas que proclamam por aí, mas - clichezinho básico - não foi por acaso que caímos na mesma seleção e, posteriormente, no mesmo trabalho, na mesma reunião em que eu entrei de gaiata e só me dei conta de que não era para eu estar ali lá pelo meio, lembras? Às vezes até tenho medo desse "não-acaso". Por que te encontrei naquele momento da minha vida?
Não sei, só sei que te tornaste a Margarida, a Caia, com um lugarzinho muito especial nos meus pensamentos. Amiga para todas as horas, e isso não é uma expressão pronta que eu uso sem refletir: PARA TODAS AS HORAS MESMO! É, vai ser realmente muito bom escrevermos aqui no (In)completas. Discutiremos literatura? Faremos confissões públicas? Falaremos de Filosofia, Linguística e Cerveja? Diremos nossas ansiedades? Encontraremos nosso lugar deslocado no mundo? Seremos existencialistas, marxistas, foucaultianas, deleuzianas? "Sujeitas" modernas, pós-modernas, hiper-modernas, mega-modernas, exageradamente modernas ou clássicas, positivistas e cartesianas? Criticaremos um mundo em que não cabemos? Criaremos mundos? Não importa. Estaremos aqui, por horas, mais sérias do que de costume, por horas, mais engraçadinhas do que normalmente.
Olha, a ideia do blog está se tornando realidade. Já tínhamos, há bastante tempo falado nisso, mas, modificamos nossos objetivos, crescemos um pouco, tomamos algumas cervejas, alguns vinhos, champagnes, "chimarrões", pensamos bem e surgiu a história da correnspondência, que me parece muito mais acertada. Essa coisa da escrita que nos assalta em tantas madrugadas vai ter mais um lugar para se realizar e me parece que vamos evoluir com tudo isso. Vamos exercitar o nosso "lápis" e, talvez, encontrar alguns caminhos "estilísticos" para as nossas vidas de "escrevedoras".
A única coisa que lamento é o fato de não nos correspondermos em manuscritos. Com essa história de Internet, nós deixamos mesmo de (re)conhecer a letra dos amigos. Sabe, há uns anos, eu ia aos Correios quase todos os dias, eu tinha vários "correspondentes". Hoje, não sei quanto custa um selo. Esta correria em que a gente anda nos impede até disso. Mas, adaptemo-nos! Já que a gente trabalha tanto no computador, que seja mesmo por aqui. Assim, podemos dividir nossas loucuras com outras pessoas. Mas eu certamente vou pensar seriamente em começar a deixar "bilhetinhos" para todas as pessoas importantes para mim. Imagina chegares para trabalhar e encontrar um bilhetinho meu com umas linhas da Clarice, da Ana C., do Caio F., do Chacal, do Chico? Do Sabina, do Fito, do Ramil? Ou então posso colocar sem tu perceberes na tua bolsa e, dez mil anos depois, abrirás um bolsinho imperceptível e terá ali uma surpresinha agradável!
Já é tarde, Margarida, vou me despedindo. Mas não quero que deixes de perceber o quanto"te gosto", a amiga que és, o quanto me fazes bem, o quanto eu cresço estando contigo (e com toda a nossa máfia, não é?). A gente cria redes, redes de afetos em que cada um "puxa um fio" de conexão com os outros. E esses fios nunca são os mesmos, mas existem e vamos preenchendo aos poucos um vazio que é inerente a nós. Afetos, nada mais. É do que a gente se alimenta, não é?
Com carinho,
Jana

PS: estou pensando seriamente em passar a assinar meu nome com a inicial minúscula. Essa ideia de letra maiúscula expressa uma hierarquia e uma singularidade desnecessárias: eu sou uma rede de afetos, certo? Beijo, jana