terça-feira, 27 de abril de 2010

caia, vou quebrar o protocolo: vou te escrever sem ter recebido resposta da última carta. É necessário. Engraçado como este blog criou imperativos para mim. Escreve!, ele me diz, e eu só posso escrever, não tenho opções. É vital escrever aqui, um beco sem saída.
O Augusto acabou de sair daqui. Estivemos desde ontem à noite trabalhando, conversando, divagando, escrevendo, cantando, escutando nossos preferidos, dançando doidivanamente pela sala. É interessante o sopro de vida que o Augusto me dá! Por mais problemas que tenhamos, vê-lo me dá vontade de largar todo o resto para escrever poemas, cantar, falar da vida, de problemas existenciais ou rir compulsivamente.
Quando ele saiu pela porta, estava tocando "Joana Francesa", do Chico, na voz da Elis. Uma atmosfera de sonhos, incompatível com toda a realidade que me circunda.
A arte é cada vez uma necessidade na minha vida. Vê-la, ouvi-la, fazê-la. Não tenho mais como fugir. E parece que isso me condena a uma eterna insatisfação quanto ao resto. Amanhã o dia será árduo e somente à noite, felizmente os três juntos, poderemos "consumir" um pouco de arte que valha a pena.
Ando pensando seriamente em mudar de vida, ousar, tentar o novo, o improviso, o inesperado. Há muito tempo não penso mais ser dividida em duas... esta multiplicidade que somos me assusta... como dizem Deleuze e Guattari, "como cada um de nós era vários, já era muita gente.". Plenamente cabível para nossas vidas.
Ando levando a cabo essa ideia de multiplicidades. Se antes eu escrevia no ELA somente poemas, agora há um monte de coisas lá. As pessoas devem estar achando que eu enlouqueci. E, em parte, foi o que houve. Não quero mais negar os meus vários eus e assumir isso é uma loucura mesmo. Minha mãe anda me achando estranha, perguntou hoje se eu estava usando drogas. Quem precisa de drogas para enlouquecer se há um imperativo de escritura, se há uma compulsão pelo novo, pelo nunca antes visto?
Ando desorganizada interna e externamente.
Com carinho, jana

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Ai, cara pálida, eu não sei não onde vamos parar. As mudanças são rapidinhas demais para a minha cabecinha sonhadora! Bom, tu lembras do surto que tive só ao ler Deleuze e Guattari, né? Essa coisa de "caosmose" me incomodou pacas... Na verdade, eu não quero controlar nada, só quero olhar para as coisas, para as pessoas e não me desesperar por ver que elas não querem saber do que realmente importa. Elas querem viver em um reality show. Imaginas?! Não dá nem para dizer que vivem no mundo do Carroll...
Bom, uma otimista e uma pessimista se correspondendo é um maniqueísmo e tanto! Isso que eu sou a sagitariana, hein? Hoje não quero pensar no modo que vou achar para "me adaptar ao sistema", ele está tão introjetado em mim que nem vale a pena. O que vale é fazer pensar no interior dele, já que não posso sair. Voilá, eu sou o sistema, mas eu gostaria muito de estar na condição de "marginal", to-tal-men-te deslocada. É assim que me sinto. Na desordem. Não tenho a ilusão de que exista alguma ordem possível.
Movimentos? Chega, já estou ficando tonta! Brincadeirinha. Mas eu prefiro trocar "movimento" por "deslocamento". Lembras das aulas de Pragmática? Adequabilidade e aceitabilidade? Bem, eu preferiria inadequabilidade e inaceitabilidade!
Tá, tudo bem, eu sei que não dá, que vão me colocar numa jaula e me expor em um circo de quinta! Apesar de pensar todas essas coisas, até que eu finjo bem que sou uma "sistemática", não é? Cumpro horários, dou aulinhas bem engraçadinhas, sou uma mimosa até. Engano bem, eu diria, apesar das olheiras. mas, para alguns, a ficha cai. Mamãe disse: minha filhinha, para que discutir com teus irmãos sobre machismos e feminismos? Eu só queria que tu fosses normal. Anormal: conceito de Foucault, maior elogio que recebi. E veio de minha mãe, que nem sabe quem é Foucault.
Amanhã vou providenciar um terreno para a Tenda Multifacetada e Heteróclita. Tá de pé ainda o nosso negócio hippie com a M.? Se é para viver de compra e venda, sejamos negociantes "Woodstock".
Boa noite, margarida, amanhã trazes um chá para mim, por favor, querida? Hehe, dá-lhe Vergueiro!
Cafuné, jana
cara pintada!

Teus escritos me deixaram em extrema angústia. Não pelo fato de discordar ou concordar, mas pelo fato de que talvez nos falte espaço para refletir sobre isso. Se bem que agora temos um espaço.
Bem, também fiquei pensando sobre as nossas discussões políticas de ontem: se não temos força para modificar um sistema, como fazer para adaptar-se? Alguém saberia responder este questionamento?
Acredito que não, Jana. Um sistema nunca agradou a todos. E nunca agradará. Isso me parece ótimo: sinal de que mudanças acontecerão. E mais e mais e mais. E mais máscaras! (ou seriam manteigas para suavizar o árido?) Uma pena que o marginal, que tanto atrai ou agrada, tenha lugares reduzidos. Pode ser atraente, interessante... mas são poucos que o acompanham. Talvez seja para poucos e raros. Pelo simples fato de que aquilo que não está na ordem é desordem; infelizmente não existe um meio termo. Seria um maniqueísmo disfarçado? E mesmo que seja nunca será dito. E isso não importa, pois já está dito. E ponto final.
E assim seguimos nos movimentos: com máscaras, sem máscaras, concordando e discordando. Num dia sendo aplaudida, no outro envenenada. Mas seguimos nos movimentos. E o importante é movimentar idéias e bandeiras. Se hoje ela é rechaçada, amanhã poderá ser ovacionada. Sendo capitalista, sendo socialista... mas SENDO!
Já pensou se ficássemos cegas? A famosa cegueira branca de Saramago? O que faríamos? Seríamos mais humanas? Vejo que hoje falta um pouco de humanidade na humanidade. Mas isso é outro capítulo...
E visualizo muito bem a expulsão: muitas vezes a convenção é extremamente contraditória. Intensamente. E quanto a isso, sinceramente, eu não sei o que fazer. Talvez possa dizer algo. Mas fazer é mais complicado. Aparelhos ideológicos...
Buenas e me espalho. Escandalosamente em adaptação. Em construção e desconstrução.
E com o eterno complexo do elogio.
Por favor, manteigas!

Beijocas,
Margarida!

domingo, 25 de abril de 2010

loulou,
gostei da tua "co-respondência". Divina, como sempre são teus escritos, muito embora eu não goste mesmo de muito-emboras! Mas isso não tem nada a ver com o que significa para ti, bem sabes...  As intensidades me agradam muito!
"caia", eu espero seriamente não ser assim tão lúcida! Porque, se o que já vi até agora me incomoda e me choca, quando chegar no ponto da clareza absoluta que a lucidez implica, não sei como posso vir a ser, se é que "ser" é algo possível nesse momento. Mas, dizes que o capitalismo te chama para a realidade. Eu não sei se é isso que acontece comigo; eu acho que ele - esse sistema patético que é a nossa regra e do qual não podemos fugir, suas filhas que somos - me tira da realidade e me joga num universo paralelo: eu exerço papéis durante a minha jornada pública e só existo quando estou longe de todas as minhas obrigações. Não que essa separação seja assim tão clara, mas eu clamo pelo momento em que possa relaxar e tirar as tantas máscaras que uso no dia-a-dia, embora elas façam parte de mim.
Ontem, conversamos tu, C. e eu sobre política, assunto que me incomoda muito. Incomoda-me porque deixei de estar diretamente envolvida com isso, justamente porque me incomodava o modo como as coisas eram feitas. Olha só como somos do sistema: ele consegue nos expulsar facilmente! Ele comporta as falhas em que nos apoiamos para contestar. Consegues visualizar? É ele mesmo que as cria! Não temos opção...
Quando penso em uma bandeira, não consigo sair do lugar comum "política-de-merda" desse país e continuo em uma posição passiva quanto a tudo o que acontece. Como se eu não fosse culpada! Como se eu não pudesse fazer nada! Porra, a culpa também é minha!
A minha "dor de consciência" é um pouco amenizada por esse universo cultural em que estamos indelevelmente envolvidas (ainda bem!). A arte é um tipo de negação dessa podridão toda. Acho que é por isso que gosto tanto da cultura dos anos 70/80. Essa coisa marginal me encanta. E, no fim das contas, acho que conseguimos fazer mais assim, questionando estas verdades absolutas que nos são dadas de mão beijada - legítima injeção na testa - do que se estivéssemos envolvidas em políticas partidárias. É, parece pessimismo, mas acho que, no meu primeiro mandato como alguma coisa pública, tipo "representante do povo", eu seria misteriosamente envenenada em uma confraternização depois de uma reunião extraordinária em que eu ousasse levantar a voz. Se eu fosse um pouquinho mais vaidosa, talvez me agradasse essa ideia de virar um mártir dos incompreendidos!
Olha, como eu dizia ontem a ti e a C., depois que política virou profissão - se é que não é assim desde sempre -, ninguém vai "lutar pelos direitos do povo" e todos esses chavõezinhos banalizados pelas campanhas eleitorais torpes. Emprego é emprego, cada um salva sua pele e chega em casa para um jantarzinho amistoso, depois do expediente, quando não tem mais de pensar nas suas (ir)responsabilidades.
Sabe-se lá. Eu quero é arte, essa nossa arte que não tem centro nem gravidade, essa arte que é livre, apesar de sermos o sistema, essa arte que nos invade e nos faz dizer o óbvio e o transparente e opacificá-los, torná-los imprecisos, trocar verdades por pontos de vistas. Eu quero uma bandeira em que esteja escrito "vou continuar marchando no sentido contrário, vou continuar tentando relativizar qualquer evidência, eu vou contra a maré, mas dentro do mar!" Não vou livrar o meu pescoço!
E tu que te vires com essa minha cara pintada,margarida!
Beijo no coração,
jana
Jana, amada,

gostaria e muito de poder responder à altura as tuas palavras tão lindas... mas talvez seja impossível responder aos teus afetos tão sinceros e tão dedicados. Então pensei: não quero responder, vou co-responder! Afinal de contas, uma amizade tão legal como a tua é rara!! A menina engraçada que entrou na sala errada (e me fez rir baixinho) era a mesma que ficava quietinha teclando e teclando e teclando. E aos poucos fomos nos aproximando, trocando conversas, confidências, risadas, gargalhadas, fraquezas e as famosas teorias esquizofrênicas. Tão menina e tão madura!
Mistura de carinho de irmã caçula com rigidez materna. Sempre presente: seja no real, seja no virtual. Seja no trabalho, seja no bar! Companheira pra cara...! Muito embora ela odeie o meu "muito embora". Mas que culpa tenho se as oposições, concessões e condições que a vida (ou a sociedade?!) apresenta sejam sempre intensas! Desculpa, jana, mas a mim me parece fundamental o uso desse intensificador. Muito embora ele não agrade. Muito embora ela pareça pedante. Muito embora ele não faça sentido nas vinte e quatro horas dos nossos dias... E muito embora sejas extremamente importante para mim!
E com o tempo nossas conversas foram amadurecendo. Muito embora sejamos tão distintas! E é muito bom sermos diferentes: eu cresço, tu cresces, nós crescemos! E assim nos alimentamos ao passar dos dias. E assim nos divertimos ao passar destas horas tão responsáveis em que temos a responsabilidade de viver! Em que muitas vezes vivemos verborragicamente para distrair um pouco as ideias.
Ideias loucas de tão lúcidas que são. E que tanto me confundem (afinal, aquele excesso de lucidez me cansa!). Talvez eu tenha um excesso de romantismo na forma como eu vejo o mundo... e que mesmo assim se mescla com a lucidez... Isso quando o capitalismo me chama para a realidade! Sim, não há capitalismo que suporte tanto romantismo! Mas, calma, porque no meio disso tudo sempre tem um anarquista desiludido querendo traçar significâncias para aquilo que não entende e não suporta devido à sua fraqueza.
E agora, Preta (roubado da amiga G.), ficou confuso? Relaxa, a realidade é confusa. E talvez seja exatamente por isso que a vida nos tenha aproximado: para rirmos, conversarmos e brindarmos com todos os alcoólicos do mundo os fatos que nos são apresentados. Os labirintos dos quais já saímos. As equações infindáveis que conseguimos solucionar.
E sempre cada uma, à sua maneira. E sempre com as borboletas amarelas a nos espreitar!

Carinhosamente, lu.
Lú,
acho que nunca expressei de verdade o quanto tem sido importante a tua presença na minha vida... é estranho, tem coisas que não consigo falar. Dizer meus afetos é uma coisa que dói. O esquisito é que escrever não me incomoda, pelo contrário, é uma redenção (supusemos que eu acredite em redenções que não sejam a de Porto Alegre!). Eu acredito sinceramente que este blog será uma espécie de terapia para nós duas. Estou apostando nessa ideia. Vai ser legal.
Mas, voltando ao assunto, te conhecer foi uma coisa muito boa. Eu posso não ser lá muito religiosa e não acreditar em (mais da) metade dessas coisas que proclamam por aí, mas - clichezinho básico - não foi por acaso que caímos na mesma seleção e, posteriormente, no mesmo trabalho, na mesma reunião em que eu entrei de gaiata e só me dei conta de que não era para eu estar ali lá pelo meio, lembras? Às vezes até tenho medo desse "não-acaso". Por que te encontrei naquele momento da minha vida?
Não sei, só sei que te tornaste a Margarida, a Caia, com um lugarzinho muito especial nos meus pensamentos. Amiga para todas as horas, e isso não é uma expressão pronta que eu uso sem refletir: PARA TODAS AS HORAS MESMO! É, vai ser realmente muito bom escrevermos aqui no (In)completas. Discutiremos literatura? Faremos confissões públicas? Falaremos de Filosofia, Linguística e Cerveja? Diremos nossas ansiedades? Encontraremos nosso lugar deslocado no mundo? Seremos existencialistas, marxistas, foucaultianas, deleuzianas? "Sujeitas" modernas, pós-modernas, hiper-modernas, mega-modernas, exageradamente modernas ou clássicas, positivistas e cartesianas? Criticaremos um mundo em que não cabemos? Criaremos mundos? Não importa. Estaremos aqui, por horas, mais sérias do que de costume, por horas, mais engraçadinhas do que normalmente.
Olha, a ideia do blog está se tornando realidade. Já tínhamos, há bastante tempo falado nisso, mas, modificamos nossos objetivos, crescemos um pouco, tomamos algumas cervejas, alguns vinhos, champagnes, "chimarrões", pensamos bem e surgiu a história da correnspondência, que me parece muito mais acertada. Essa coisa da escrita que nos assalta em tantas madrugadas vai ter mais um lugar para se realizar e me parece que vamos evoluir com tudo isso. Vamos exercitar o nosso "lápis" e, talvez, encontrar alguns caminhos "estilísticos" para as nossas vidas de "escrevedoras".
A única coisa que lamento é o fato de não nos correspondermos em manuscritos. Com essa história de Internet, nós deixamos mesmo de (re)conhecer a letra dos amigos. Sabe, há uns anos, eu ia aos Correios quase todos os dias, eu tinha vários "correspondentes". Hoje, não sei quanto custa um selo. Esta correria em que a gente anda nos impede até disso. Mas, adaptemo-nos! Já que a gente trabalha tanto no computador, que seja mesmo por aqui. Assim, podemos dividir nossas loucuras com outras pessoas. Mas eu certamente vou pensar seriamente em começar a deixar "bilhetinhos" para todas as pessoas importantes para mim. Imagina chegares para trabalhar e encontrar um bilhetinho meu com umas linhas da Clarice, da Ana C., do Caio F., do Chacal, do Chico? Do Sabina, do Fito, do Ramil? Ou então posso colocar sem tu perceberes na tua bolsa e, dez mil anos depois, abrirás um bolsinho imperceptível e terá ali uma surpresinha agradável!
Já é tarde, Margarida, vou me despedindo. Mas não quero que deixes de perceber o quanto"te gosto", a amiga que és, o quanto me fazes bem, o quanto eu cresço estando contigo (e com toda a nossa máfia, não é?). A gente cria redes, redes de afetos em que cada um "puxa um fio" de conexão com os outros. E esses fios nunca são os mesmos, mas existem e vamos preenchendo aos poucos um vazio que é inerente a nós. Afetos, nada mais. É do que a gente se alimenta, não é?
Com carinho,
Jana

PS: estou pensando seriamente em passar a assinar meu nome com a inicial minúscula. Essa ideia de letra maiúscula expressa uma hierarquia e uma singularidade desnecessárias: eu sou uma rede de afetos, certo? Beijo, jana