domingo, 25 de abril de 2010

loulou,
gostei da tua "co-respondência". Divina, como sempre são teus escritos, muito embora eu não goste mesmo de muito-emboras! Mas isso não tem nada a ver com o que significa para ti, bem sabes...  As intensidades me agradam muito!
"caia", eu espero seriamente não ser assim tão lúcida! Porque, se o que já vi até agora me incomoda e me choca, quando chegar no ponto da clareza absoluta que a lucidez implica, não sei como posso vir a ser, se é que "ser" é algo possível nesse momento. Mas, dizes que o capitalismo te chama para a realidade. Eu não sei se é isso que acontece comigo; eu acho que ele - esse sistema patético que é a nossa regra e do qual não podemos fugir, suas filhas que somos - me tira da realidade e me joga num universo paralelo: eu exerço papéis durante a minha jornada pública e só existo quando estou longe de todas as minhas obrigações. Não que essa separação seja assim tão clara, mas eu clamo pelo momento em que possa relaxar e tirar as tantas máscaras que uso no dia-a-dia, embora elas façam parte de mim.
Ontem, conversamos tu, C. e eu sobre política, assunto que me incomoda muito. Incomoda-me porque deixei de estar diretamente envolvida com isso, justamente porque me incomodava o modo como as coisas eram feitas. Olha só como somos do sistema: ele consegue nos expulsar facilmente! Ele comporta as falhas em que nos apoiamos para contestar. Consegues visualizar? É ele mesmo que as cria! Não temos opção...
Quando penso em uma bandeira, não consigo sair do lugar comum "política-de-merda" desse país e continuo em uma posição passiva quanto a tudo o que acontece. Como se eu não fosse culpada! Como se eu não pudesse fazer nada! Porra, a culpa também é minha!
A minha "dor de consciência" é um pouco amenizada por esse universo cultural em que estamos indelevelmente envolvidas (ainda bem!). A arte é um tipo de negação dessa podridão toda. Acho que é por isso que gosto tanto da cultura dos anos 70/80. Essa coisa marginal me encanta. E, no fim das contas, acho que conseguimos fazer mais assim, questionando estas verdades absolutas que nos são dadas de mão beijada - legítima injeção na testa - do que se estivéssemos envolvidas em políticas partidárias. É, parece pessimismo, mas acho que, no meu primeiro mandato como alguma coisa pública, tipo "representante do povo", eu seria misteriosamente envenenada em uma confraternização depois de uma reunião extraordinária em que eu ousasse levantar a voz. Se eu fosse um pouquinho mais vaidosa, talvez me agradasse essa ideia de virar um mártir dos incompreendidos!
Olha, como eu dizia ontem a ti e a C., depois que política virou profissão - se é que não é assim desde sempre -, ninguém vai "lutar pelos direitos do povo" e todos esses chavõezinhos banalizados pelas campanhas eleitorais torpes. Emprego é emprego, cada um salva sua pele e chega em casa para um jantarzinho amistoso, depois do expediente, quando não tem mais de pensar nas suas (ir)responsabilidades.
Sabe-se lá. Eu quero é arte, essa nossa arte que não tem centro nem gravidade, essa arte que é livre, apesar de sermos o sistema, essa arte que nos invade e nos faz dizer o óbvio e o transparente e opacificá-los, torná-los imprecisos, trocar verdades por pontos de vistas. Eu quero uma bandeira em que esteja escrito "vou continuar marchando no sentido contrário, vou continuar tentando relativizar qualquer evidência, eu vou contra a maré, mas dentro do mar!" Não vou livrar o meu pescoço!
E tu que te vires com essa minha cara pintada,margarida!
Beijo no coração,
jana

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