quarta-feira, 14 de julho de 2010

Loulou, Margarida, Ti mesma, tenho que te chamar de todas as formas possíveis, para ver se perdoas essa correspondente tão ausente, não é?

Margarida,
tanta coisa aconteceu em um mês. Esse mês em que nós não nos correspondemos por aqui, não foi? Não vou dizer que aconteceram tragédias e maravilhas, aconteceram coisas. Coisas da vida adulta, esta que eu tanto temo.
Não quero falar de tristezas hoje. Tampouco de alegrias. Mas preciso te dizer que mudei. E não foi só o cabelo! Mudei muito, mudei até meu estilo de escrita. Mudei minhas leituras, mudei minhas perspectivas, estou prestes a mudar de endereço, mudei ra-di-cal-mente.
Talvez essas mudanças já viessem se processando há muito tempo. É incrível, eu tentei ser menos mística, sonhadora, bobalhona, religiosa, mas tudo realmente acontece na hora exata. Absolutamente tudo. Tudo se encaixa perfeitamente. E isso não é bom nem é ruim. Simplesmente é.
Tudo isso tem agido sobre a minha escrita, Margarida, sabes? Voltei a engatinhar. Não sei mais escrever poemas. Não sei mais escrever ficção. Voltei para a fase do diário, não é incrível? Voltei, sim. E o mais importante, não estou me sentindo culpada por isso. Acho que as cartas vêm bem a calhar.
Tenho lido muito também. "Do luxo ao lixo", como dizes, "do Kitsch ao Cult", como dizem. Do lado A ao lado B.
Tenho recebido muitos afetos. Tenho me decepcionado e tenho percebido que o mundo é cheio de pessoas boas. Não é otimismo, não. Eu tenho precisado tanto de gentes. E elas não sumiram como das outras vezes, isso não é bárbaro?
Tenho me descoberto. Há um tempo, pela primeira vez, tive uma reação que, para mim, era totalmente cinematográfica? Eu ri até chorar e não o contrário. Isso para mim era ficção. E não é não. Aconteceu. E foi um alívio e tanto.
Tenho sentido coisas que não ouso contar para ninguém. Recalco tudo. Quase tudo, digamos. Talvez não seja melhor assim, mas é o que estou conseguindo fazer até o momento.
Tenho visto coisas. E eu nunca vira coisas assim antes. Ando me surpreendendo. Comigo, com os outros. E também não é bom nem ruim. Só é.
Não consegui parar o tempo. O que eu tanto quis. Desejo infantil e imaturo. Mas não deixa de ter sua dimensão de beleza, não é? Agora eu quero que o tempo voe. Quero ter quarenta anos em quatro. E isso não é pessimismo e falta de perspectiva de vida, fique bem entendido.
Tenho dormido tarde ou cedo, mas nunca no horário. Mas isso já era assim antes.
Tenho estado distante. Tenho visto estradas. Tenho trabalhado menos. Tenho ficado triste ou eufórica. Tenho sido tão previsível.
Ai, loulou, acho que estou começando uma nova fase. E o mais engraçado é que eu não sei precisar qual é.
Isso se chama inverno do pensamento?
Amanhã vai nevar.
Não esqueças que eu estou de volta, mesmo que eu desapareça, ok?
Um beijo bem estalado,
jana